Pormenores

    Escrito por Gustavo Bottega em 21 de novembro de 2011 às 12:47

    Pão e Chimia

    Uma vez uma criança ficava faceira em comer pão com chimia. Depois um dia intenso de brincadeiras na rua, nada como um lanche de verdade para suprir toda a energia consumida. Uvada de figo, marmelada de maçã, figada de uva. Não importa, era tudo chimia, o néctar dos deuses.

    Eu, embalado por esta mistura mágica, pegava minha Caloicross e desbravava matos, subia nas plantas, gastava a sola do Kichute num campinho de terra. As crianças do meu tempo admiravam ver as nonas fazer chimia no tacho. E hoje, as crianças não vão ver mais chimias e sim geleias, plastificadas em supermercados.

    Eram tempos em que as propagandas de Omo faziam sentido. A gente se sujava de verdade. Era uma terra de alegria e uma terra sem alergia. Hoje, os adultos resguardam tanto as crianças que não dão chance para elas criarem anticorpos. Uma rotina onde a convivência mais selvagem é com poodles de apartamento.

    Ah, como eu tenho saudades das picadas de formiguinha vermelha e de roseta cravada no dedão. Das guerras de bexiguinha d´água e das partidas intermináveis de taco-bola – só acabava quando o açougue fechava e a luz do poste da rua acendia , também o sinal que anunciava a hora da janta.

    Saudades das partidas de bolita que jogávamos em qualquer montinho de areia, dentre bitucas de cigarro e cocô de gato. Das partidas acirradas de bisca e menos-copa devorando um pacote de plic-plac com kisuco.

    Saudades do tempo que era bom sentir medo das histórias fantásticas que nos contavam. Me lembro até hoje daquelas noites de verão onde se olhava para o céu e se contemplava uma concha cravejada de luzinhas piscantes. Não preciso vasculhar muito a mente para revisitar exatamente aquelas sensações, àqueles arrepios causados pelas fábulas malévolas do lendário véio do saco que minha tia Zane contava, deliciada com o brilho inquieto dos meus olhos.

    Bons tempos quando se tinha tempo para observar o mundo a nossa volta. Sentar na sacada com minha irmã Clau e brincar de contar carros. “Os carros azuis são meus e os carros brancos são os teus”. Ficava faceiro quando passava um Monza classic azul e ria da cara dela quando passava um Corcel branco caindo aos pedaços.

    Havia inocência até na sacanagem. Uma vez, eu e meus primos Jota, Lê e Rica invadimos a fabriqueta de serigrafia do meu tio Osma para folhear a ‘amazônica‘ Playboy da Claudia Ohana. O Jota, o mais provido de corpo na época, entalou na porta, àquelas de banheiro público. Pegos no flagra, resolvemos contar toda a verdade e assumir a culpa juntos.

    Não tem jeito, sempre serei um chato saudosista. Mas para mim, isso não significa viver do passado. E sim, fazer da vida uma eterna infância. Uma infância que imagina o sabor que quiser. Seja na figada de uva ou na uvada de figo. Pra mim é tudo chimia, uma deliciosa chimia.

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    Quem é Gustavo Bottega

    Jornalista, fundador do site Fato Livre. Trabalha como repórter e cronista esportivo no Jornal Semanário de Bento Gonçalves. Fotógrafo e músico nas horas de folga.


    É autor de 178 matérias no Fato Livre!

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