Pormenores
O Trapelão
Tem gente que nasce para ser atrapalhado. Tem que ter o dom. Em Bentópolis, mais conhecido como trapelão. Você identifica de longe um verdadeiro trapelão. É aquele cara que quer jogar bola mas nem aprendeu a caminhar direito. Quebra copos e garrafas com frequência em festas, é campeão em derrubar molho de tomate no pulôver novo. Consegue estar no lugar errado e na hora errada. Eu sou um deles desde que eu nasci. Para vir ao mundo, tiveram que me desvencilhar do cordão umbilical, que estava sufocando no meu pescoço e não me deixava nem sequer chorar. A partir daí, uma enorme rotina de trapalhadas, pestes, enfermidades e mini-acidentes me acompanharam pela vida. Cicatrizes de uma infância intensa. Eu tenho mais pontos no corpo que Grêmio no Brasileirão em duas temporadas.
Os trapelões exigem anjos da guarda ninjas pela sua tamanha distração. Sempre estão propensos ao risco. Eles parecem que farejam confusão. Nas festas, sempre apanham sem ter culpa e saem da balada sem dinheiro e sozinhos (nem todos). O cara não consegue fazer pegar o voyage bege, tendo que ir a pé da Cidade Alta até o Ouro Verde. Borracho, vai avançando pelas ruas tortas, abraçando as árvores e encardindo o moletom, e a cada tombo, perdendo itens da indumentária até chegar em casa e descobrir que perdeu a chave. Os trapelões são campeões de traquinagem no trânsito. O voyage bege já tá redondo de tanta pechada e já tem mais massa que a Isabela inteira.
Não tem jeito, o seu anjo tem que fazer hora extra de sexta até domingo, sem direito a insalubridade. No meu caso, eu consegui superar a fase trapelão. Gastei a minha cota na infância e na adolescência e dispensei o meu anjo das horas extras. Mas mesmo assim continuo quebrando uma quantidade impressionante de copos e sujando muitas toalhas de mesa. O que me consola é que na vida se tem uma determinada cota de sorte. E acho que não gastei muito não. Não ganhei nem em sorteio de rifa da escola. Aliás, sobre os copos, os árabes têm uma crença interessante. Acreditam que quando se quebra um copo, a pessoa terá sorte nas próximas horas, pois ela deixou de gastar uma cota de sorte naquele momento. Interessante isso.
Mas o trapelão não sabe disso e fica tenso quando tem uma janta na casa de amigos. Vê aquela toalha branquinha e já pensa o pior, como um episódio do Mister Bean. Dito e feito, deixa uma trilha de molho na toalha que vai do vasilhame do espaguete até o seu prato. E percebe que sua camisa está igual. Na sequência, derruba o copo de suco no chão. A sorte sua é que era duralex. Depois da janta, vem aquela súbita vontade de ir ao banheiro. Resultado: entope o vaso, acaba o papel e a torneira emperra. Certo que foi o maldito copo duralex que não quebrou.Enfim, assim nós trapelões vivemos perigosamente e gastando poucas cotas de sorte. Entretanto, temos fé de que ela virá em dose generosa a qualquer momento, mesmo quando o nosso anjo estiver de férias.
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Quem é Gustavo Bottega
Jornalista, fundador do site Fato Livre. Trabalha como repórter e cronista esportivo no Jornal Semanário de Bento Gonçalves. Fotógrafo e músico nas horas de folga.
É autor de 178 matérias no Fato Livre!