Pormenores
Aquele Beijo
Não havia nenhum sentimento naquele beijo. Era um beijo frio e duro como uma pedra. Um beijo oco e mecânico. Um beijo puramente carnal e burocrático como se fosse carimbar um documento em uma repartição pública. Um beijo que significava o prenúncio do fim, cujo sentimento parecia ter escoado pelos calcanhares e entrado num ralo profundo.
Eu vi que não tinha mais vida naquele beijo. Ali na rua, na minha frente, eles se beijaram como se fosse um aperto de mão entre dois inimigos íntimos. Um beijo sem cor, sem nada. Um beijo daqueles que some da boca com um gole de cerveja.
Triste de ver. E é desse jeito que muitos casais apenas batem cartão por aí, cumprindo uma penosa missão dos beijos que não deixam saudades, daqueles que só cumprem um protocolo de obrigações conjugais. Tratam o beijo como uma rotina, que acham que só o ato de beijar irá sustentar uma relação.
Beijar é bom, mas não é coisa para se desperdiçar assim. Um beijo de verdade merece ser assimilado nas suas múltiplas sensações. Um beijo é uma aula de percepção sensorial. No entanto não podemos ver como disciplinas do colégio. Sim, o beijo é física, química e matemática. Se ficar só no número, perde toda a essência. Falo daqueles caras que beijam uma mulher já pensando na próxima. E trocam muita saliva noite adentro. Como se fossem ganhar milhagens por cada boca beijada. Parece que vivem num mundo promocional: juntando dez bocas o usuário ganha o cartão gold de (in)fidelidade.
Oras, o beijo bem que poderia ser uma arte. Para despertar antes o poeta e depois o ‘poeteiro’. E bem antes de pegar a carona do piloto automático sexual, seria massa se o beijo transitasse por todos os processos. Desde o momento que os lábios se tocam como dois gomos de uma bergamota madura (ok, pode ser outra fruta menos fedorenta). E num repente, forma-se uma obra de arte anatômica perfeita, uma geografia labial em forma de moldura para assim, a arte ganhar forma.
Arte mutante de suspiros vacilantes, que ativam os sentidos e abrem todos os poros da pele a ponto de arrepiar a espinha. O corpo sente um leve tremor entorpecido pelo peito pulsante. Você passa a perceber seu coração. Sim, você está vivo! E está que é Dodge fora de ponto. A cada golfada de combustível no carburador, mais indomável ele fica.
Você não é mais um ser racional. Seus fluídos não são mais saliva, repleta de micróbios, sapinhos e perebas. Ali está o poder da cura, o elixir para os males do mundo. Mas onde está o mundo, se quando você beija, ele some? Resta fechar os olhos e sentir borboletas e besouros brincando no seu estômago. Sorrindo e levitando, você vomita arco-íris. Sim…é aquele beijo.
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Quem é Gustavo Bottega
Jornalista, fundador do site Fato Livre. Trabalha como repórter e cronista esportivo no Jornal Semanário de Bento Gonçalves. Fotógrafo e músico nas horas de folga.
É autor de 178 matérias no Fato Livre!