Os Fora da Pauta
A foto imita a vida
Quando comecei o curso de jornalismo a fotografia digital era artigo de luxo. Lá por 2000 é que o professor me apresentou o primeiro exemplar de uma câmera digital. Desde então, eu comecei a ver o mundo por uma nova perspectiva. Uma segunda realidade, aumentada pelo imediatismo e precisão. Ao mesmo tempo que se perdia o mistério (das câmeras de filme), se ganhava um novo formato, totalmente virtual e que podia ser compartilhado com todo o mundo em segundos. A fotografia digital e a internet fizeram uma verdadeira revolução na informação.E as câmeras compactas invadiram o mundo, que se tornou alvo indiscriminado de lentes sem controle. A cada sorriso, a cada passo é uma fotografia para a posteridade. Nada escapa ao dedo inquieto dos ‘fotógrafos’ de plantão. E o digital mesmo não palpável, não deixa de ser eterna. Ainda mais quando cai na rede de computadores. É o que tem acontecido, freneticamente.
Garotas deixam ser fotografadas na sua intimidade, com seus namorados. E em alguns dias, a cidade inteira recebe no conforto de sua casa, uma versão amadora da Playboy. E o fato se repete entupindo caixas de e-mails com assunto ‘Mais uma da cidade’.
Fotografia é coisa séria. E muita gente não tem noção do poder que tem em mãos. Um poder que pode virar contra si mesmo. Um exemplo claro é a criminalidade através da internet. Bandidos estão usando fotos de redes sociais para assaltar. As pessoas deixam – visíveis para os visitantes de seus perfis – toda sua intimidade. Fotos da casa, pertences, carros, família, enfim, tudo que possa chamar a atenção para um assalto ou sequestro.
A fotografia digital proporciona essas possibilidades. E não medimos o dedo na hora de apertar o obturador, na ânsia de não perder nada. Consequência de um mundo cada vez mais visual. A questão é saber usar este artefato com bom senso.
Comigo aconteceu um fato inusitado. Uma vez fui assaltado, e levaram minha câmera. Meses depois, por um milagre, consegui recuperá-la. Havia anotado o meu número de telefone no cartão de memória. Uma pessoa tentou vendê-la numa loja, que desconfiou e me ligou. Em casa, com a câmera em mãos, primeira coisa foi ver as possíveis fotos tiradas após o roubo. O que eu vi foram elementos muito suspeitos escorados num Chevette, fumando e tomando cerveja. Mas deixei quieto. Afinal era cena corriqueira demais.
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Quem é Gustavo Bottega
Jornalista, fundador do site Fato Livre. Trabalha como repórter e cronista esportivo no Jornal Semanário de Bento Gonçalves. Fotógrafo e músico nas horas de folga.
É autor de 178 matérias no Fato Livre!