Art Pop
É pagar para ver
Depois de dezenas de anos, aderi à minha primeira TV por assinatura. Diante da telinha, agora tenho todo o mundo sob meu controle. Logo depois que o técnico foi embora após a instalação, fiquei em estado de alfa, zapeando os canais, incrédulo. Um sentimento de poder e ao mesmo tempo de desalento. E parando no canal Telecine Premium HD, me questionei: ‘Sou um vencedor ou sou um perdedor?’ Após toda a minha vida ter que assistir Gre-Nais em botecos, agora vou poder vê-los no conforto de casa, em alta definição, sem chatos e secadores de plantão.
Finalmente vou mais fica boiando nas rodas de conversa sobre as minisséries americanas. Não vou precisar mais ir à locadora e tão pouco para o cinema, já que posso adquirir os filmes diretamente da TV, debitando da minha conta. Tudo com um toque de um botão.Mas terei a minha vingança. Foram anos assistindo programas patéticos da TV aberta e aqueles filmes terríveis da Tela Quente e Domingo Maior. Nunca mais. Com uma ressalva para Chaves, a minissérie imortal.
O fato é que agora eu vou escolher a programação, o conteúdo que quero consumir. O processo seletivo que já fazia na internet, agora vou poder aplicar no meu televisor.Entretanto, diante deste mundo até então desconhecido, vou ir com certa cautela. Vi relatos bem incisivos sobre a dependência a essas minisséries que empilham temporadas arrastando milhares de seguidores, feitos zumbis numa caravana hipnótica. Prometi a mim mesmo que não vou perder sábados de sol para ficar sentado numa poltrona comendo doritos com coca.
Não quero virar um ‘sedentário hiperativo’, e perder totalmente o foco. Ou ser tomado pela síndrome de trocar o canal toda hora, pensando que sempre vai ter um programa melhor naquele exato momento. E no fim, não aproveitou e sua vida passa a ser dois filmes pela metade.
Outro lado positivo será que, diante da quantidade de filmes bons, vou deixar de lado um pouco a maldita internet e seu flagelo Facebook. Vou largar da Hebe, do Studio Pampa, das novelas da Globo (aliás, da Globo inteira), do Bóris Casoy, e principalmente, daquela cara de buldogue velho do Faustão. De uma vez por todas vou entender as regras do futebol americano, rugby, hóquei e adjacentes. E ver aqueles americanos gordos com seus macacões, caçando crocodilos no pântano – mesmo que as dublagens sejam toscas.
E os shows? Não vou precisar mais pagar caro para levar cotoveladas e ficar espremido na multidão. Vou ver tudo isso em casa, com qualidade perfeita de som e imagem, em diversos ângulos, e óbvio, tomando uma cerveja. Se é para apanhar, pelo menos que seja em show do ACDC pra cima.
Essas TVs novas são tão boas que a imagem é mais bonita e definida do que a vida real. Até já me alertaram que TV a cabo é um caminho virtual sem volta. Tentei resistir até o último momento. Não deu. Fraquejei e agora o mundo me engole. Ou sou eu que engulo o mundo? Enfim, começa agora mais uma vida, a do mundo impossível. É pagar pra ver.
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Quem é Gustavo Bottega
Jornalista, fundador do site Fato Livre. Trabalha como repórter e cronista esportivo no Jornal Semanário de Bento Gonçalves. Fotógrafo e músico nas horas de folga.
É autor de 178 matérias no Fato Livre!
melhor pagar do que assistir faustão e gugu em pleno domingo!!!!
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